No Kyudo, cada peça desempenha um papel essencial na prática. Nesta página encontrará uma breve introdução ao equipamento que acompanha o arqueiro. Este equipamento e o material são desenhados de forma a oferecer precisão, equilíbrio e conforto ao longo do caminho.
Yumi (弓)
O Yumi, o arco japonês, é reconhecido pela sua forma distinta e pelas dimensões superiores a 2,20 m. A configuração que hoje conhecemos foi essencialmente estabelecida entre os séculos XIV e XV, quando se consolidaram tanto a técnica de tiro como os métodos de construção.
Na sua expressão mais tradicional, o arco é composto por lamelas de bambu unidas com grande precisão, recorrendo a uma cola natural chamada nibe – 鰾膠 – que era feita a partir da cozedura do couro de veado. Este método confere ao arco qualidades muito apreciadas, nomeadamente na sua flexibilidade e resistência, mas também uma sensibilidade marcante às condições ambientais. A humidade, o calor intenso e as variações sazonais podem levar o arco a entortar, especialmente no verão ou na época chuvosa.

Por isso, cuidar de um arco tradicional exige a mesma atenção que se dá a algo vivo. Deve ser protegido da humidade, limpo com um pano seco antes e depois da prática, e quaisquer manchas de sujidade ou de kusune (resina) devem ser devidamente removidas. Além disso, os pontos fortes e fracos da forma do arco tem grande influência na sua durabilidade e desempenho. Assim, cuidar do arco e manter a sua forma correta com regularidade é fundamental.
No entanto, a utilização de um arco de bambu por principiantes não é recomendada pois o excessivo esforço de torção que lhe é imposto pode causar a rutura e desagregação das lamelas do arco. No séc. XX começam a surgir arcos feitos de materiais compósitos, como fibra de vidro e carbono, que são hoje em dia usados no Japão para a iniciação e para a prática corrente. Mesmo na construção de arcos de bambu tornou-se comum o uso de resinas sintéticas como agente de ligação, mais estáveis do que a nibe. Estes arcos modernos oferecem maior resistência à humidade e ao calor, mantendo uma boa consistência mesmo em ambientes menos favoráveis.


A forma do arco japonês é única pois é assimétrica, o que lhe confere uma beleza singular e o tornou num objeto de veneração no Japão. Uma boa parte da evolução do Kyudo nos últimos séculos deve-se precisamente à veneração e consequente manutenção da forma do arco japonês, exigindo particularidades técnicas para atingir o objetivo de acertar no alvo. Ao contrário dos arcos de outros países, não foi o arco que se alterou para se tornar mais eficaz, mas sim o Homem, a sua postura e a sua técnica que evoluíram em função das exigências que o arco coloca. Em certa medida, a beleza inspirada da forma do arco, tem levado ao aperfeiçoamento da técnica do Kyudo, conduzindo o praticante na sua postura a alcançar uma relação de harmonia e beleza formal com do arco.
Como escolher o comprimento do arco?
É de grande importância o arqueiro escolher um comprimento do arco adequado à sua fisionomia. Este comprimento é determinado por duas medidas, a altura do arqueiro e o comprimento de abertura (yazuka). Em baixo apresentamos uma tabela de referência:
| Altura do Arqueiro | Comprimento da Abertura | Comprimento do Arco |
|---|---|---|
| Inferior a 150cm | Inferior a 85cm | Sansun Tsumari (212cm) 三寸詰 |
| 150cm a 170cm | 85cm a 90cm | Namisun (221cm) 並寸 |
| 170cm a 180cm | 90cm a 100cm | Nisun Nobi (227cm) 二寸伸 |
| Superior a 180cm | 100cm a 105cm | Yonsun Nobi (233cm) 四寸伸 |
Como determinar a força do arco adequada?
A força do arco adequado é também determinada por dois fatores, a experiência do arqueiro e a sua constituição física.
No início, o arqueiro deve idelamente começar com um arco relativamente fraco (por exemplo, 8 a 10kg), e á medida que vai ganhando experiência, vai também aumentando gradualmente a força do arco.
Ya (矢)
As flechas de Kyudo são relativamente longas (90-105 cm) devido à forma de abertura do arco durante o tiro. São tradicionalmente construídas em bambu, mais especificamente Pseudosasa Japonica (também conhecido como Yadake), com ponteiras de aço. O bambu é colhido quando tem cerca de 2 anos de idade e é deixado a secar por um período de 2 a 3 anos. Originalmente, penas naturais de aves de rapina eram utilizadas, sendo o nock feito com chifre de cabra ou veado.
As flechas tradicionais também têm pouca resistências à humidade. Assim, à medidade que se vão entortando, as flechas também podem ser corrigidas, aquecendo-as (tameru). As flechas devem ser sempre mantidas num local seco e limpas com um pano seco para evitar a acumulação de humidade e sujidade. É necessário fazer esta manutenção de vez em quando, de forma a manter as flechas na sua forma correta.

Nas últimas décadas têm sido feitos esforços para proteger e preservar estas espécies de aves e tornar o fabrico de flechas mais sustentável. Para este efeito, recorre-se então às penas de aves mais comuns, como por exemplo o peru e os tubos das flechas são feitos de alumínio ou carbono, sendo os nocks de plástico/resina.
O tamanho das flechas, denominado de yashaku (矢尺), depende do yazuka (矢束) de cada arqueiro, isto é, o comprimento da abertura do arco, único a cada arqueiro. A procedimento geral para encontrar o comprimento adequado da flecha é estender completamente o braço e a mão e medir desde centro da garganta até à ponta dos dedos, adicionando uma margem de segurança de 5 a 10 centímetros.
Haya e Otoya
Na construção das flechas, são usadas tanto penas da asa direita como da asa esquerda dos pássaros. Isto significa que as penas apresentam um ligeira curvatura natural para esquerda ou direita. As flechas cujas penas curvam para a esquerda são designadas por Haya (甲矢), que são disparadas primeiro. As flechas cujas penas curvam para a direita designam-se por Otoya (乙矢), que são as segundas a serem disparadas. Esta curvatura natural das penas também afeta a rotação das flechas durante o voo, sendo que as Haya giram no sentido dos ponteiros do relógio, e as Otoya no sentido contrário.

Adicionalmente, as flechas também são também diferenciadas pelo diâmetro e espessura do seu tubo. Estas medidas estão muitas vezes indicadas na própria flecha, e o seu uso deve acompanhadar a força do arco adequada:
| Tubo da Flecha | Força do Arco |
|---|---|
| Easton Aluminum 1913 | 11kg~13kg |
| Easton Aluminum 2014 | 13kg~15kg |
| Easton Aluminum 2015 | > 13kg |
| Easton Aluminum 2117 | > 20kg |
| Easton Carbon 76-20 | 10kg~14kg |
| Easton Carbon 80-23 | 14kg~20kg |
| Easton Carbon 74-21 | 14kg~20kg |
Mato (的)
O tiro standard, a 28 metros, chama-se Kinteki (近的) – lit. alvo próximo. O alvo tem 36 cm de diâmetro e consiste num aro de madeira (matowaku – 的枠) revestido com papel branco impresso (matogami – 的紙) com círculos concêntricos negros.

Três faixas negras e tem o centro branco, sendo o alvo mais utilizado

Um único círculo negro impresso no centro do alvo, apenas utilizado nos treinos

Alvo de grandes dimensões, usado no tiro a longa distãncia (Enteki)

Alvo Dourado e Alvo Prateado
Geralmente são apenas utilizados em ocasiões festivas/simbólicas
Normalmente o Mato é colocado 9cm acima do nível do solo (do ponto central do alvo ao chão devem ser 27cm), num espaldão de terra inclinado chamado de Azuchi (安土) que serve de proteção e suporte. Existem outras formas de tiro a distâncias maiores (por exemplo, Enteki – 遠的, a 60m), com alvos maiores e também de formatos não circulares. As formas de tiro a distâncias superiores têm aspetos técnicos e de postura diferentes do tiro à distância de 28 metros.
Yugake (弓弽)
A luva para a mão direita, também conhecida pela abreviatura de Kake, é um dos requisitos para a prática do Kyudo e destina-se segurar a corda e a flecha. Sem ela, toda a forma de atirar teria que ser diferente. As luvas de Kyudo são feitas de couro de veado curtido, que é posteriormente colado e costurado até atingir a sua forma final. Dado não serem muito resistentes à humidade, devem também ser guardadas num local seco. Quando, devido ao suor, a luva ficar húmida, é aconselhável secá-la num local à sombra e com boa ventilação, não devendo ser secada diretamente ao sol ou sob calor direto. As luvas têm ainda uma proteção rígida no dedo polegar, designada porTsurumakura – 弦枕.

Existem três tipos de luvas:
- Mitsugake (三つ弽) – Luva de três dedos (polegar, indicados, e médio)
- Yotsugake (四つ弽) – Luva de quatro dedos (polegar, indicados, médio e anelar)
- Morogake (諸弽) – Luva completa com cinco dedos.
Dado que as luvas são difíceis de usar e que cada tipo de luvas tem as suas próprias características, é recomendado que os principiantes aprendam como usar a luva corretamente através de um professor.
Uma luva pode ser usada durante vários anos, dependendo de como é usada e cuidada. Deste modo, é de extrema importância tratar da luva com cuidado e perceber bem a sua função e características.

As diferentes luvas implicam algumas pequenas diferenças na técnica do Kyudo, sem alterarem nenhum dos seus aspetos que constituem o seu fundamento.
A luva é sempre usada em conjunto com uma outra, de proteção interior, feita em algodão branco, chamada Shitagake –下カケ.
Tsuru (弦)
O Tsuru, a corda do arco, pode ser feito de fibras naturais, sobretudo cânhamo, ou de materiais sintéticos, como o kevlar. As cordas sintéticas são, em geral, mais duráveis e estáveis, enquanto as naturais oferecem uma sonoridade (tsurune) mais “clara” no momento do hanare. Por essa razão, as cordas de cânhamo são recomendadas sobretudo para arcos de bambu e para praticantes mais experientes. Existem ainda versões mistas, que combinam fibras naturais e sintéticas, oferecendo maior resistência do que as cordas totalmente naturais.


A escolha do tsuru depende também do tamanho do arco, sendo que cada comprimento do arco tem a sua corda correspondente. No caso das cordas naturais, existe ainda a variação de espessura, medida em monme, uma antiga unidade japonesa. Estas espessuras relacionam-se diretamente com a força de abertura do arco:
- 1.6 monme para arcos até cerca de 15 kg;
- 1.8 monme para arcos de 16 a 17 kg;
- 2.0 monme para arcos de 18 a 20 kg;
- 2.1 e 2.4 monme para arcos acima de 20 kg
O cuidado diário do tsuru é simples, mas essencial. Antes e depois da prática, deve ser esfregado com o magusune, um pequeno disco que é tecido usando cordas velhas, na forma das sandálias tradicionais japonesas (waraji). A fricção aquece a kusune (a resina aplicada na corda), fazendo com que esta penetre melhor nas fibras e as torne mais firmes. Um tsuru bem tratado não só dura mais, como responde de forma mais estável e harmoniosa.

Tsurumaki (弦巻)
Destinado à arrumação e ao transporte de uma corda sobresselente, oTsurumaki tem a forma circular, é tradicionalmente feito em vime e faz-se acompanhar do Giriko ire (ギリ粉入れ), um pequeno recipiente talhado em cana, madeira ou chifre, contendo resina de pinheiro cozida, designada por Giriko (ギリ粉), que é utilizado na regulação do atrito do dedo na luva de couro.

Kyudogi (弓道着)
A roupa a utilizar no Kyudo. Consta dos seguintes elementos:
- Kyudogi (弓道衣) – Camisa de Kyudo; normalmente em algodão de cor branca.
- Kimono (着物) – Camisa e casaco para tiros formais em vez do anterior kyudogi.
- Hakama (袴) – Saia-calção japonês de cor preta ou azul escuro, exceto quando usado com Kimono em que poderá ter outras cores e padrões.
- Obi (帯) – Cinto que se usa sob o Hakama. No Kyudo, ao contrário do que acontece noutras artes marciais japonesas tradicionais, não existe qualquer sistema de cores dos cintos relacionado com a graduação do praticante. Geralmente, as seguintes medidas são usadas:
- Homem: ~380cm x ~10cm;
- Mulher: ~380cm x ~12cm;
- Tabi (足袋) – Sapato-meia em tecido branco que, devido ao seu recorte junto ao dedo grande do pé, permite calçar os chinelos (zorii).
Makiwara (巻藁)
Rolo de palha, de forma cilíndrica, idealmente com 45 cm ou 54 cm de diâmetro, colocado na horizontal sobre um suporte para o treino do tiro a curta distância (cerca de 2 metros). É importante manter esta distância para prevenir o perigo de acidentes, em particular dado que as flechas usadas no Makiwara (巻藁矢) não têm penas (e quando têm, são apenas de caráter descorativo), sendo assim singularmente indicadas para este tiro a curta distância.
A sua utilização é fundamental para a evolução na prática do tiro, qualquer que seja o nível do praticante. Existem algumas cerimónias de tiro que são executadas no Makiwara. Em tempos recuados, o rolo era colocado na vertical para simular um tronco humano.

Koyama Kyugu (小山弓具)

A prestigiada loja de material de Kyudo Koyama Kyugu foi a principal fornecedora de material e equipamento do Mestre Yokokoji. Um produtor e comerciante com afinidades à escola Ogasawara, que desde o início da prática do Kyudo em Portugal tem fornecido a maior parte dos equipamentos e materiais utilizados pelos praticantes portugueses. Infelizmente, o site da loja não tem uma versão portuguesa ou inglesa e os contactos são difíceis sem um interlocutor.
