Nota: O texto que se segue é uma tradução integral da página “Spirit of Kyudo – Rei”, disponibilizada no site oficial da IKYF, que explora a Etiqueta (Rei) no Kyudo.
Etiqueta
É apenas natural que a forma do Kyudo se adapte às necessidades de cada geração. Em tempo antigos, dizia-se que a Escola Ogasawara era tida em alta consideração pela sua Etiqueta e a Escola Heki pelo seu Tiro. A Escola Ogasawara liderou no estabelecimento dos princípios cerimoniais da etiqueta, enquanto a Escola Heki liderou no estabelecimento da técnica do tiro. Apesar de ambas as Escolas terem as suas diferenças, à medida que os tempos mudaram, mudaram também as condições sociais. Assim, ambas as Escolas procuraram uma forma de unificar as suas diferenças. Acabaram por compreender que etiqueta sem técnica não pode ser realmente chamada de “Tiro”, ao passo que técnica sem etiqueta não era o caminho do Kyudo. Tanto técnica como etiqueta concedem uma união inseparável ao Tiro, evidenciando a verdade do Kyudo.
Prova desta combinação pode ser vista no desaparecimento gradual de palavras como Kyujutsu (Arte do Arco) ou Shajitsu (Arte do Tiro) durante o Período Meiji, tornando-se mais comum o uso da palavra Kyudo (Caminho do Arco).
Se nos preocuparmos apenas com a técnica do tiro e perdermos foco do decoro e etiqueta, então o tiro é apenas para desporto e não só perde a sua profundidade como a sua forma se torna desordenada. Por outro lado, se envergamos demasiado na etiqueta e negligenciamos a técnica do tiro, este torna-se deveras vazio e sem vida.
Técnica e Etiqueta deverão tornar-se um. Aí pode então ser dito que «Verdade, Bondade e Beleza (Shin Zen Bi) são manifestados pela execução do Tiro, que surge veloz como um trovão, de um estado de espíriro sem malícia.»
O objetivo do Kyudo não é apenas a competição, mas o cultivo da mente e do corpo como um caminho para alcançar a auto-perfeição. Por todo o Japão, esta noção tornou-se largamente conhecida – um facto que é verdadeiramente gratificante e que dá significado á proliferação e ao desenvolvimento desta tradição por todo o mundo.
O Espírito do Tiro Cerimonial
Desde tempos anteriores, o Sharei (tiro cerimonial) tem sido o tipo de tiro executado em rituais que celebram uma cerimónia religiosa ou outras ocasiões formais. Era baseado nos princípios de etiqueta que tradicionalmente governavam o comportamento do quotidiano.
Tradicionalmente, a etiqueta era inerente a todos os aspetos da vida quotidiana, e esta inseparabilidade da etiqueta com os demais assuntos era expressa no ditado «Sha wa rei ni hajimari, rei ni owaru » (射は礼に始まり、礼に終わる), literalmente, “O tiro começa com etiqueta e termina com etiqueta”, significando que devemos agir de acordo com o tempo, local e estatuto da situação.
Com isto em mente, os movimentos do tiro tornar-se-ão graciosos e solenes, criando um estado de espírito em que existe serenidade e pureza de coração, revelando a harmonia do tiro e a etiqueta. A prática desta sinceridade com cada flecha é o principal objeto do Kyudo.
Este significado é inerente aos textos clássicos do Raiki, que diz «Este Tiro é um ensinamento legado pelo sábio, em que o tiro, com o seu ciclo de movimentos de avançar ou retroceder, nunca o poderá ser sem cortesia e decoro». Outra passsagem de uma fonte anciã expressa-o de um ponto de vista ético, «Desta forma, tudo é um disciplinar da moralidade. Esta vitória aterroriza todo o reino, e ao treinar a virtude interior, o inimigo exterior também é aterrorizado. Isto fornece corpo ao tiro.». Estas passagens implicam que, historicamente, de geração em geração, o arco tem sido uma importante ferramenta no refinamento da virtude pessoal e no estabelecimento de uma estrutura ética e moral da sociedade.
O tiro, que desta forma coloca uma grande ênfase no campo espiritual, deve ser imbuído de sinceridade e cortesia e através dele devemos expressar o nosso coração e a beleza da harmonia.
O tiro cerimonial não só reflete os valores tradicionais, como dá expressão ao comportamento e movimentos básicos, aos princípios do tiro e à técnica. Deste modo, desde os tempos antigos que se mantém o costume de o tiro cerimonial ser realizado por um arqueiro experiente que domina estes fundamentos. Não esquecendo a importância do tiro cerimonial e o seu contexto histórico, devemos dedicar-nos à mestria das formas fundamentais do Kyudo, treinando arduamente para expressarmos graciosidade e dignidade no tiro.
Para mais informações sobre o Caminho do Arco, recomendamos as seguintes leituras:
